REPETIÇÕES PARCIAIS APÓS A FALHA: MAIS ESTÍMULO OU APENAS MAIS FADIGA?

O que acontece quando já não conseguimos completar uma repetição… mas continuamos?

Chegamos àquela última repetição.

Tentamos novamente.

A carga sobe… mas não conseguimos completar o movimento.

Será que a série terminou?

Do ponto de vista da amplitude completa, sim.

Mas será que o músculo já não consegue produzir qualquer trabalho?

É precisamente aqui que entram as repetições parciais após a falha — uma estratégia avançada de treino que tem despertado cada vez mais interesse na investigação científica.

A questão é simples:

Continuar uma série através de repetições parciais depois da falha concêntrica momentânea pode proporcionar um estímulo adicional para o crescimento muscular?

A resposta atual da ciência é mais interessante do que um simples "sim" ou "não".


O que significa realmente "falhar"?

Antes de falarmos de repetições parciais, precisamos de definir o que significa falha concêntrica momentânea.

A fase concêntrica é a fase do movimento em que o músculo encurta enquanto produz força — por exemplo, quando empurramos a carga para cima num leg press.

A falha concêntrica momentânea (Momentary Failure, ou MF) ocorre quando, apesar de uma tentativa máxima e de uma execução adequada, já não conseguimos completar outra repetição dentro da amplitude e técnica estabelecidas.

É importante perceber que isto não significa necessariamente que o músculo deixou completamente de conseguir produzir força.

Significa que, naquele momento, já não conseguimos produzir força suficiente para completar aquela repetição naquela amplitude.

E essa diferença é fundamental.


Full ROM, parciais e parciais pós-falha

Outro conceito importante é ROM — Range of Motion, que significa amplitude de movimento.

Quando realizamos uma repetição em Full ROM, utilizamos a amplitude completa definida para o exercício.

Já uma repetição parcial utiliza apenas uma parte dessa amplitude.

Mas existem duas estratégias completamente diferentes:

Repetições parciais desde o início

Começamos a série e realizamos todas as repetições utilizando uma amplitude reduzida.

Repetições parciais após a falha

Realizamos primeiro as repetições em amplitude completa:

Full ROM → falha concêntrica → parciais → nova falha.

É esta segunda estratégia que constitui o foco principal deste artigo.


O que diz a investigação?

Um dos primeiros trabalhos a explorar diretamente esta questão foi realizado por Pereira e colaboradores.

Os investigadores compararam indivíduos fisicamente ativos que terminavam a série na falha com indivíduos que continuavam a realizar repetições parciais.

O grupo que utilizou as repetições parciais após a falha apresentou melhorias no desempenho do lançamento de Medicine Ball, embora não tenha demonstrado uma melhoria significativa na resistência muscular localizada.

Apesar de interessante, este estudo apresentou limitações importantes, incluindo uma amostra pequena e uma intervenção de curta duração.

Além disso, não avaliou diretamente a hipertrofia muscular.

Portanto, foi uma primeira indicação de que prolongar uma série após a falha poderia influenciar determinadas adaptações, mas estava longe de ser suficiente para estabelecer uma conclusão definitiva.


2025: a investigação começa a mudar o panorama

Um dos estudos mais relevantes surgiu através de Larsen e colaboradores (2025).

Os investigadores estudaram 23 homens não treinados durante 10 semanas, utilizando o exercício de elevação dos gémeos (calf raise).

Uma condição terminava a série após atingir a falha em amplitude completa.

A outra continuava, depois da falha, com repetições parciais realizadas numa posição de maior alongamento muscular.

Os resultados foram interessantes.

O gastrocnêmio medial apresentou um aumento aproximado de:

6,7% no grupo que terminava na falha;

contra

9,6% no grupo que continuava com repetições parciais.

A diferença estimada foi de 0,62 mm.

A análise estatística apresentou ainda um Bayes Factor (BF) de 13,3 a favor das parciais pós-falha.

O Bayes Factor é uma medida estatística utilizada para comparar a força da evidência a favor de uma hipótese relativamente a outra.

Um valor elevado indica maior suporte dos dados para uma das hipóteses.

Neste caso, os resultados favoreceram a hipótese de que as repetições parciais pós-falha poderiam aumentar a hipertrofia do gastrocnêmio.

Mas existe um detalhe fundamental:

foi um estudo realizado num único grupo muscular e em indivíduos não treinados.

Não podemos simplesmente transportar estes resultados para todos os exercícios e populações.


E quando estudamos indivíduos treinados?

A mesma linha de investigação trouxe outro estudo de Larsen e colaboradores (2025), desta vez envolvendo indivíduos com experiência de treino de resistência.

Os investigadores compararam duas estratégias:

repetições parciais desde o início da série

versus

Full ROM até à falha, seguido de repetições parciais.

Ambas as estratégias produziram hipertrofia.

O grupo das parciais desde o início apresentou um crescimento médio ligeiramente superior, mas a diferença não foi suficientemente convincente para estabelecer que uma estratégia fosse superior à outra.

O Bayes Factor foi apenas 1,2, correspondendo a evidência muito fraca.

Ou seja:

as duas estratégias parecem funcionar, mas não temos evidência sólida de que uma seja claramente superior.

E isto é importante porque demonstra como os resultados podem mudar dependendo da população estudada e da forma como as parciais são aplicadas.


2026: um novo estudo acrescenta uma peça importante

Em 2026, Goli e colaboradores realizaram um novo estudo com 16 homens não treinados durante 10 semanas.

Mais uma vez, o exercício utilizado foi o calf raise.

Uma condição realizou:

Full ROM → falha → termina.

A outra:

Full ROM → falha → repetições parciais em posição alongada → segunda falha.

Mas desta vez os investigadores introduziram uma variável extremamente importante:

o volume de carga foi igualado entre as condições.

E os resultados foram muito interessantes.

Ambos os grupos apresentaram aproximadamente:

+8% de aumento da espessura muscular.

Ou seja, quando o volume de carga foi controlado, não houve uma vantagem clara das parciais pós-falha na hipertrofia.

No entanto, surgiu outra diferença.

As repetições parciais pós-falha apresentaram aproximadamente o dobro da eficiência de crescimento por série.

Isto sugere que as parciais podem permitir obter um determinado estímulo utilizando menos séries, embora não tenham produzido maior crescimento quando o volume total foi igualado.


Então… mais trabalho significa mais músculo?

Não necessariamente.

E esta é provavelmente uma das conclusões mais importantes de toda esta investigação.

As repetições parciais após a falha permitem prolongar a série.

Podemos realizar mais repetições.

Podemos aumentar o trabalho realizado.

Podemos acumular mais volume dentro daquela série.

Mas:

mais trabalho não significa automaticamente mais hipertrofia.

O estudo de Goli e colaboradores (2026) demonstra precisamente isso.

Quando o volume de carga foi igualado, tanto o protocolo convencional como o protocolo com parciais pós-falha produziram aproximadamente o mesmo crescimento muscular.

Portanto, as parciais podem representar uma ferramenta para aumentar a eficiência do treino, mas não podemos afirmar que sejam uma fórmula para produzir automaticamente mais massa muscular.


E a posição do músculo durante as parciais?

Aqui entramos numa das áreas mais interessantes da investigação recente.

Nem todas as repetições parciais são iguais.

Uma repetição parcial pode ser realizada quando o músculo está numa posição relativamente encurtada ou numa posição relativamente alongada.

As chamadas Lengthened Partial Repetitions são repetições parciais realizadas em posições em que o músculo permanece relativamente alongado.

E alguns estudos sugerem que isto pode ser particularmente relevante para a hipertrofia.

Kassiano e colaboradores (2023) compararam diferentes amplitudes de movimento durante o treino dos gémeos e observaram resultados favoráveis às parciais realizadas em comprimentos musculares mais longos.

Este trabalho reforça uma ideia importante:

Não devemos falar simplesmente em "repetições parciais". Precisamos de saber em que parte da amplitude elas são realizadas.


E o Full ROM? Continua a ser importante?

Sem dúvida.

Seria um erro interpretar estes estudos como prova de que devemos abandonar a amplitude completa.

A evidência global continua a suportar o Full ROM como uma estratégia extremamente eficaz para desenvolver força e massa muscular.

Uma meta-análise de Pallarés e colaboradores (2021) encontrou vantagens da amplitude completa para o desenvolvimento da força e da hipertrofia dos membros inferiores.

Por outro lado, a revisão sistemática e meta-análise de Wolf, Androulakis-Korakakis, Fisher, Schoenfeld e Steele (2023) encontrou diferenças globais relativamente pequenas entre amplitude completa e parcial.

Isto sugere que as parciais podem ser uma ferramenta válida em determinados contextos, mas não existe fundamento científico para afirmar que sejam universalmente superiores à amplitude completa.


E onde entra a proximidade da falha?

Para compreender por que motivo as parciais pós-falha podem ser interessantes, precisamos primeiro de compreender a importância da proximidade da falha.

Aqui entra outro termo frequentemente utilizado na ciência do treino:

RIR — Repetitions In Reserve

Em português, repetições em reserva.

É uma estimativa do número de repetições que ainda conseguiríamos realizar antes de atingir a falha.

Por exemplo:

3 RIR → acreditamos que conseguiríamos realizar mais três repetições.

1 RIR → aproximadamente mais uma repetição.

0 RIR → falha concêntrica momentânea.

Uma meta-regressão de Robinson e colaboradores (2024) encontrou uma relação mais evidente entre a proximidade da falha e os ganhos de hipertrofia do que para os ganhos de força.

Isto não significa que todas as séries tenham de ser levadas à falha.

Significa que, para maximizar a hipertrofia, a proximidade da falha parece ser uma variável relevante.


Então o que acontece quando chegamos à falha?

Imagine uma série de leg press.

Realizamos uma repetição.

Depois outra.

E outra.

A fadiga aumenta.

Chegamos ao ponto em que conseguimos iniciar uma nova repetição, mas já não conseguimos completar a amplitude total.

A série chegou à falha concêntrica.

Mas se reduzirmos a amplitude, podemos conseguir continuar.

É aqui que surge a hipótese:

talvez a falha de uma amplitude não represente a falha absoluta da capacidade do músculo produzir força.

Ao modificar a amplitude, modificamos também:

  • as alavancas;
  • o comprimento muscular;
  • a relação força-comprimento;
  • a exigência mecânica;
  • a capacidade de continuar o movimento.

Assim, podemos conseguir realizar algumas repetições adicionais.

Mas isso não significa que todas essas repetições tenham necessariamente o mesmo estímulo que uma repetição completa.

E é precisamente aqui que a ciência ainda não tem todas as respostas.


Devemos então utilizar parciais depois da falha?

A evidência disponível permite uma resposta bastante equilibrada.

Sim — podem ser uma ferramenta útil.

Mas:

Não — não são obrigatórias.

E sobretudo:

Não — não existe evidência suficiente para afirmar que são universalmente superiores ao treino convencional.

Na prática, parecem fazer mais sentido como uma técnica avançada utilizada seletivamente.

Por exemplo:

Full ROM → próximo da falha → falha → algumas parciais controladas.

Em vez de utilizar esta estratégia em todas as séries, poderíamos reservá-la para determinadas séries finais ou exercícios em que seja possível controlar facilmente a execução.


Onde esta estratégia pode fazer mais sentido?

A investigação disponível foi realizada sobretudo com exercícios relativamente simples, particularmente calf raises.

Por isso, devemos ter cuidado ao extrapolar os resultados.

Em exercícios mais estáveis e controlados — sobretudo máquinas e alguns exercícios monoarticulares — pode ser mais fácil utilizar parciais pós-falha mantendo uma execução segura.

Já em exercícios multiarticulares complexos, a fadiga pode comprometer significativamente a técnica.

Num exercício como um leg press, por exemplo, a utilização de repetições parciais após a falha deve ser feita com muito mais cuidado do que num exercício isolado e altamente controlado.

Mais esforço não deve significar perda de controlo.


O que ainda não sabemos?

Apesar dos resultados promissores, a investigação específica sobre parciais pós-falha ainda é relativamente recente.

Grande parte dos estudos apresenta:

  • amostras pequenas;
  • períodos de intervenção relativamente curtos;
  • utilização de exercícios específicos;
  • predominância de estudos realizados nos gémeos;
  • participantes não treinados ou com experiência limitada.

Ainda precisamos de mais investigação sobre:

indivíduos altamente treinados;

diferentes grupos musculares;

exercícios multiarticulares;

efeitos a longo prazo;

recuperação e fadiga acumulada;

comparação com séries terminadas a 1–3 RIR.

Portanto, devemos resistir à tentação de transformar resultados interessantes numa regra universal.


A conclusão BEAMACHINE

A investigação disponível até 2026 começa a mostrar que as repetições parciais após a falha concêntrica podem ser uma ferramenta eficaz para prolongar uma série e aumentar a eficiência do trabalho realizado.

Alguns estudos, como os de Larsen e colaboradores (2025), encontraram resultados favoráveis à utilização de parciais pós-falha para a hipertrofia do gastrocnêmio.

Outros resultados, particularmente o estudo de Goli e colaboradores (2026), mostram que quando o volume de carga é igualado, o crescimento muscular pode ser semelhante entre o treino convencional até à falha e o treino que continua com parciais.

A evidência atual aponta, portanto, para uma conclusão mais interessante do que simplesmente dizer que as parciais são "melhores" ou "piores":

As repetições parciais pós-falha podem ser uma ferramenta para aumentar a eficiência de uma série, mas não são uma fórmula mágica para produzir mais músculo.

O Full ROM continua a ser uma excelente base para o treino.

A proximidade da falha parece ser importante para maximizar o estímulo hipertrófico.

E as parciais pós-falha podem representar uma ferramenta adicional para o praticante avançado que sabe quando, onde e como utilizá-las.

Porque no treino, tal como na ciência:

Não basta treinar mais. É preciso saber porque estamos a treinar dessa forma.

TRAIN SMART. BUILD STRONG.


Referências científicas

Pereira e colaboradores. Estudo sobre a influência das repetições parciais após a falha concêntrica momentânea no desenvolvimento da força e resistência muscular em indivíduos fisicamente ativos.

Larsen S, Swinton PA, Sandberg NØ, et al. (2025). Resistance Training Beyond Momentary Failure: The Effects of Past-Failure Partials on Muscle Hypertrophy in the Gastrocnemius.

Larsen S, Sandberg NØ, Schoenfeld BJ, et al. (2025). Resistance Training Beyond Momentary Failure: The Effects of Past-Failure Partials Versus Initial Partials on Calf Muscle Hypertrophy Among a Resistance-Trained Cohort.

Goli A, Attarieh P, Nunes JP, et al. (2026). Does Performing Partial Repetitions Beyond Momentary Failure Enhance Muscle Hypertrophy in Volume-Load-Equated Calf-Raise Resistance Training?

Kassiano W, Costa B, Kunevaliki G, et al. (2023). Greater Gastrocnemius Muscle Hypertrophy After Partial Range of Motion Training Performed at Long Muscle Lengths.

Pallarés JG, et al. (2021). Effects of Range of Motion on Resistance Training Adaptations: A Systematic Review and Meta-Analysis.

Wolf M, Androulakis-Korakakis P, Fisher J, Schoenfeld BJ, Steele J. (2023). Partial vs Full Range of Motion Resistance Training: A Systematic Review and Meta-Analysis.

Robinson ZP, Pelland JC, Remmert J, et al. (2024). Exploring the Dose-Response Relationship Between Estimated Resistance Training Proximity to Failure, Strength Gain, and Muscle Hypertrophy.

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